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Parte 3 de 4 · Informação, ego e responsabilidade

Coisas que aprendi com League of Legends e vou levar pra vida e pros negócios

Sobre ver o mapa, olhar pra dentro e parar de culpar quem aparece primeiro.

Por Mateus · Leitura: ~10 minutos

Bem-vindo à terceira parte. Se chegou agora, o pulo do gato é o seguinte: comecei a jogar entre 2015 e 2016, sempre quis subir nos rankings, e ao longo dos anos esse jogo me ensinou conceitos com altíssima taxa de transferência pra vida e pros negócios. Já passamos por onde investir energia (Parte 1) e decisão sob pressão (Parte 2). Agora chegamos numa parte que mexe com algo mais incômodo: como você lida com informação, com ego e com responsabilidade.

Os conceitos dessa parte se conectam num eixo só: a maioria das derrotas — no jogo e na vida — não acontece por falta de habilidade. Acontece por excesso de ego e por falta do hábito chato de olhar pra dentro. Vamos lá.

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INFORMAÇÃO1. Visão vence jogo: informação é vantagem composta

ward /wɔːd/

totem colocado no mapa que revela visão de uma área específica por tempo limitado, fornecendo informação sobre movimentação inimiga.

O conceito no jogo

Em LoL, ward é um pequeno totem que você coloca no mapa pra revelar visão da área. Sem ward, aquele pedaço do mapa fica escuro pra você — você não sabe se tem inimigo lá ou não. Com ward, você enxerga. Parece um detalhe técnico bobo, mas a verdade é que visão vence jogo. Quem tem mais informação sobre o mapa toma decisões melhores, evita armadilhas, prevê ataques, controla objetivos. É vantagem em camadas.

Curiosidade: descobriram que um dos segredos da supremacia coreana no LoL durante anos foi exatamente isso. Eles wardavam mais e melhor que todo mundo, e essa vantagem informacional gerou uma diferença que demorou pra outras regiões decifrarem. Não eram só mais habilidosos mecanicamente. Eles viam mais.

Trazendo pra vida

Informação é vantagem composta — igual snowball, lembra da Parte 1? Cada pedaço de informação que você tem te permite tomar uma decisão melhor, que gera resultado melhor, que gera mais informação, que gera decisão ainda melhor. E uma das maiores armadilhas é: tomar decisão importante sem informação suficiente porque deu “preguiça” de procurar.

Um exemplo da minha vida

Antes de qualquer movimento grande — investimento, contratação, lançamento, parceria — eu pago o pedágio da informação. Pesquiso, pergunto pra quem já fez, leio o que tem disponível, faço cálculo. Não é paralisia por análise. É só recusar tomar decisão de “luz apagada” quando dá pra acender a luz. A diferença é que quando finalmente tomo a decisão, ela vem com base. Se der errado, dá errado por algo que eu não tinha como saber, não por algo que eu não quis olhar.

Nota Tem uma forma específica de visão que vale ouro: visão sobre você mesmo. Ferramentas como dashboard pessoal, journal, planilha de hábitos, registro de decisões — tudo isso é warding interno. Falamos mais disso no próximo tópico.

Em escala maior

Inteligência militar, espionagem corporativa, jornalismo investigativo, análise de mercado — toda atividade competitiva séria gasta uma fração desproporcional dos recursos em ver mais. Não em atacar mais, não em defender mais. Em ver. Quem vê primeiro, age primeiro. Quem age primeiro com base em informação real, ganha vantagem e sai na frente.

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INFORMAÇÃO2. Análise de replays: revisitar pra evoluir de verdade

replay /ˈriː.pleɪ/

gravação completa de uma partida que pode ser assistida posteriormente para análise de erros, decisões e padrões.

O conceito no jogo

LoL grava todas as suas partidas. Você pode assisti-las depois, em qualquer ângulo, com pausa e câmera lenta, com estatísticas detalhadas. Os bons jogadores fazem isso religiosamente. Não pra se gabar das jogadas boas — mas pra encontrar os erros. Por que morreu naquele momento? Por que perdeu a luta? Por que escolheu aquele item? Cada partida vira material de estudo.

Sem essa análise, você joga 100, 500, 1000 partidas e repete os mesmos erros. Com ela, você joga 10 e já melhorou.

Trazendo pra vida

Na vida, nem sempre tem replay literal. Você não consegue voltar a fita de uma reunião difícil, de uma decisão ruim, de uma briga com alguém. Mas dá pra aproximar. E quem aproxima evolui muito mais rápido do que quem só vive os eventos sem revisitá-los.

Um exemplo da minha vida

Algumas ferramentas que viraram meus replays na vida:

Dica que considero essencial: use metacognição — ou seja, pense sobre como você pensa. Não só registre o que aconteceu, mas também o que você achava que aconteceria. A divergência entre o esperado e o real é onde mora todo aprendizado.

Em escala maior

Toda profissão de elite faz alguma forma de análise de replay. Cirurgião revê procedimento. Piloto revê voo. Atleta revê jogo. Pesquisador revê experimento. Não é vergonha — é como se evolui. A pessoa comum confunde revisão com autoflagelação e foge dela. Aí passa a vida cometendo o mesmo erro de formas levemente diferentes, sem nunca entender por quê.

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MENTALIDADE3. Foque nos seus 20%: cumpra sua parte e siga

20% do time /ˈvĩ.tʃi poɾ ˈsẽ.tu du ˈtʃi.mi/

fração de impacto que cada um dos cinco jogadores tem teoricamente sobre o resultado de uma partida.

O conceito no jogo

Em LoL, sua equipe tem mais 4 pessoas, mas a constante em todas as suas partidas é você. Os outros mudam — você não. Se são 5 jogadores, num modelo simplificado, cada um afeta cerca de 20% do resultado. Pense que você pode garantir os seus 20%. Isso é o suficiente. Não precisa carregar o time inteiro o tempo todo (apesar de ser legal quando dá — voltamos no “carregar” da Parte 2).

Esse é um conceito sutil, mas poderoso, porque é o antídoto mais direto pro tilt e pro vitimismo. Frases como “eu não subo de elo porque só caio com time troll” são extremamente comuns. Mas pensa: se isso fosse verdade, nenhum jogador subiria. Os bons jogadores caem com trolls também. Eles só não fazem disso a história deles.

Trazendo pra vida

Esse é, no fundo, o mesmo princípio do estoicismo que apareceu na regra dos 33%: foque no que você controla. Mas com uma nuance importante — em vez de ficar preocupado com o que não é seu, foque obsessivamente no que é. Faça os seus 20% impecavelmente. Faça com tanto cuidado que ninguém possa apontar pra você como motivo do fracasso. Aí, se tiver fracasso, é por outra coisa — e isso te liberta de boa parte da culpa e da ruminação mental.

Um exemplo da minha vida

Em projetos colaborativos, treinei isso forte. Antes, eu ficava tentando influenciar tudo — a parte dos outros, o ambiente, o cliente, o universo. Era exaustivo e eu nunca achava o suficiente. Hoje, defino com bastante clareza qual é a minha parte dentro do projeto, executo até o talo, e solto a parte dos outros. Quando alguém falha, sou compreensivo (a parte deles também é difícil). Quando dá certo, nunca foi sozinho. Quando dá errado, eu já sei se a falha foi minha ou não, sem precisar de ninguém pra me dizer.

Nota Importante: focar nos seus 20% não é desinteresse pelo time. É exatamente o oposto. É reconhecer que a melhor forma de ajudar o time é fazer a sua parte impecavelmente, sem desperdiçar energia tentando jogar a parte dos outros.

Em escala maior

Esse é o princípio de accountability pessoal — talvez a virtude mais difícil de cultivar e mais valiosa em qualquer ambiente. Pessoas que assumem seus 20% inteiros são raras. As outras passam o tempo todo apontando pros 80% que são responsabilidade dos outros. Adivinha quem cresce mais.

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MENTALIDADE4. Sempre culpam o jungle: a função mais versátil vira pára-raios

jungle /ˈdʒʌŋ.gəl/

função no LoL responsável por circular pela área entre as rotas, gerenciar objetivos neutros e ajudar onde for necessário; única posição sem rota fixa.

O conceito no jogo

Existe uma piada interna no LoL que virou quase lei: a culpa é sempre do jungle. Perdeu uma luta? Foi o jungle que não chegou. Levou gank na lane? Foi o jungle que não wardou. Time perdeu o objetivo? Foi o jungle que estava no lugar errado.

Por que isso acontece? Porque o jungle é a única posição móvel — ele não tem rota fixa, circula pelo mapa, e pode (em teoria) ajudar qualquer um. Como ele podia estar lá, todo mundo aponta pra ele quando algo dá errado. É o pára-raios perfeito pra desviar a culpa do erro próprio.

Trazendo pra vida

Toda função “transversal” em qualquer estrutura sofre disso. Quando o cargo da pessoa atravessa várias áreas, ela vira candidata permanente a levar a culpa do que dá errado nessas áreas, mesmo que ela não fosse a responsável principal.

Um exemplo da minha vida

O equivalente perfeito do jungle no mundo dos negócios é o marketing. Vendas caíram? Foi o marketing. Cliente reclamou da experiência? Foi o marketing que prometeu demais. Não tem público nas redes? Foi o marketing que não soube comunicar.

Em todas essas situações, o problema costuma estar distribuído: produto fraco, atendimento lento, vendedores ruins, financeiro confuso, mercado em crise. Mas como o marketing toca em tudo, vira candidato fácil pra absorver toda a culpa. Já vi áreas inteiras sendo trocadas porque o marketing “não estava entregando” — quando a verdade é que era outro setor que não estava entregando, mas ninguém queria reconhecer.

Em escala maior

Outras profissões “jungle” da vida: RH (sempre culpado quando a cultura está ruim, mesmo quando o problema é a liderança), TI (sempre culpado quando algo não funciona, mesmo quando os processos são o problema), gestão de produto (sempre culpado por baixa satisfação do cliente, mesmo quando o SAC é incompetente). Se você ocupa uma dessas funções, dois conselhos: documente bem o que está sob seu controle e o que não está, e desenvolva pele grossa. Você vai ouvir muito que “a culpa é sua”. Quase nunca vai ser inteiramente.

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Fechando a Parte 3: ver mais, atribuir melhor

Os quatro tópicos dessa parte se cruzam num lugar só: a relação saudável com a verdade. Visão vence jogo é sobre buscar mais informação. Análise de replays é sobre revisitar a verdade do que aconteceu. Foque nos seus 20% é sobre ser honesto com a sua parte. E sempre culpam o jungle é o lembrete de que a maioria dos outros vai se esquivar de ser honesto sobre os próprios erros — e que você não precisa imitar.

Crescer rápido, no jogo e na vida, depende muito menos de talento natural do que da disposição diária pra encarar os dados, o espelho e a responsabilidade. Não é confortável. Mas é o que separa quem evolui de quem só envelhece jogando.

→ Continua na próxima parte

Volume, maestria e a pergunta desconfortável — quantas horas é preciso, o conceito mais extraordinário que aprendi (boosters), a soma das suas horas em algo que talvez não importasse tanto, e a controvérsia honesta: vale a pena continuar jogando?

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