Última parte. Antes de começar, recapitulando: a Parte 1 foi sobre onde investir energia, a Parte 2 sobre decisão sob pressão, a Parte 3 sobre informação, ego e responsabilidade. Se você está chegando agora, recomendo voltar pelo menos na primeira — boa parte do que vem aqui faz mais sentido em sequência.
Esta parte é a mais especial. Tem três coisas únicas dela: o conceito mais extraordinário que esse jogo me ensinou (e que paradoxalmente quebra várias regras das partes anteriores), uma conta honesta sobre quanto tempo investi nesse jogo, e uma reflexão controversa sobre se valeu a pena. Vamos.
HABILIDADE1. Volume: a quantidade de jogos importa mais do que parece
quantidade total de repetições deliberadas de uma habilidade. Em LoL, número de partidas jogadas com um campeão ou função específica.
O conceito no jogo
Aqui é mais um aprendizado direto do Asteek (lembra dele da Parte 1, dos 33%?). Ele tinha um número específico que mudou minha forma de pensar progressão:
Campeões simples precisam de cerca de 50 jogos para você aprender de verdade. Campeões complexos precisam de 300 a 1000 jogos.
Não é “jogue até cansar”. É um número específico, baseado em observação real de quanto custa virar bom em algo. E o ponto é que a maioria das pessoas para muito antes desse limiar concluem que “não tem talento” para um campeão. Não é falta de talento — é falta de volume.
Trazendo pra vida
Esse, talvez, seja um dos conceitos mais transferíveis pra vida real que esse jogo me deu. É o irmão gêmeo de várias ideias famosas:
- A regra das 100 do Alex Hormozi — fazer 100 ligações, 100 vídeos, 100 testes antes de avaliar.
- O 10X do Grant Cardone — fazer 10 vezes mais do que o senso comum sugere.
- As 10 mil horas do Malcolm Gladwell, ou as horas absurdas do Kobe Bryant pra ter vantagem sobre todos.
Todos esses conceitos apontam pra mesma coisa: repetição deliberada em volume é o ingrediente menos sexy e mais decisivo da maestria. Não tem atalho. Tem só pra quem chegou no número.
Um exemplo da minha vida
Quando fiz coaching individual com um mono jax (jogador que jogava só com o personagem Jax) que já tinha sido várias vezes top1 jax do Brasil e vivia de subir contas profissionalmente, ele me disse uma coisa que ficou cravada:
Cara, você é melhor do que o elo em que você está. Seu nível de jogo está uns 3 elos acima e isso é nítido pra mim, que jogo direto nesses elos. Você só ainda não subiu porque não está colocando volume de jogos.
Foi um soco. Eu achava que pra subir, faltava habilidade. Faltava só aparecer. Joguei mais. Subi. Não tanto quanto ele previu, muito porque não consegui conciliar minhas obrigações de empreendedor com esse volume necessário. Mas a lição maior foi pra fora do jogo: quantas vezes na vida eu confundi “ainda não sou bom o suficiente” com “ainda não fiz vezes o suficiente”?
Em escala maior
Pergunte qualquer pessoa de elite no que ela faz — escritor, atleta, empresário, médico, programador, artista — e você vai descobrir que tem volume absurdo de prática deliberada por trás. A diferença entre eles e os outros não costuma ser a chama interna inicial. É que eles continuaram quando a maioria parou.
✦ A CEREJA DO BOLO ✦
(pra quem leu até aqui)
HABILIDADE2. Boosters: o conceito que quebra todas as regras
jogador de elite que joga em rankings inferiores ao seu próprio, geralmente em troca de pagamento para subir o ranking de contas de outras pessoas, criando assimetria de habilidade enorme contra os seus atuais adversários.
O conceito no jogo
Boosters são jogadores muito bons, muito bem ranqueados, que jogam em elos abaixo do seu pra subir outras contas — geralmente por dinheiro. Quando isso acontece, eles criam uma disparidade brutal entre o nível de habilidade deles e o nível das pessoas com quem estão jogando naquele momento.
E aqui vem o ponto que muda tudo: lembra da regra dos 33% da Parte 1 — aquela de que ~33% das partidas estão perdidas independente do que você faça? Isso não se aplica aos boosters. A diferença de habilidade é tão grande que eles criam um snowball (lembra também?) tão imenso, partida após partida, que conseguem manter a taxa de vitória de 100% (ou muito próximo disso) por períodos longos. Só perdem essa invencibilidade quando vão subindo no ranking e finalmente encontram pessoas com habilidade comparável.
Trazendo pra vida
Esse conceito é extraordinário porque ele quebra várias das regras anteriores. Ele mostra que a tal “regra” de não dá pra vencer 100%, é uma regra dentro de um nível de habilidade similar entre os competidores. Quando a habilidade fica desproporcional, as estatísticas mudam. Você sai do jogo de probabilidades.
Se a sua habilidade for grande o bastante em relação à concorrência, você não está mais jogando o mesmo jogo que ela.
Esse insight gerou um desejo imenso em mim: me tornar o mais habilidoso possível em coisas que pra mim importavam. Não pra competir “de igual pra igual”. Pra ser desproporcional. Pra ser, em alguma área específica, o booster do meu próprio mercado.
Um exemplo da minha vida e dos negócios
É aquele tipo de conceito que faz você querer ser melhor. Que faz querer se dedicar mais. Que faz entender que um nível de habilidade superior faz você destruir probabilidade e estatísticas. Faz ir além do que é considerado possível. Fala a verdade: você também fica com essa vontade de ser muito melhor na sua área quando entende um conceito como esse?
Em escala maior
Em negócios, esse conceito é ouro. Quando você analisa um mercado, uma das perguntas mais úteis é: qual o nível de habilidade dos concorrentes nesse nicho? Se a média é baixa — se você consegue identificar erros básicos sendo cometidos por todos — esse é um mercado em que você pode entrar como booster. Você não precisa ser o melhor do mundo. Precisa só ser desproporcional àquele ambiente específico.
A história está cheia de gente que fez isso em níveis absurdos. Pessoas que viraram tão habilidosas em uma coisa que conseguiram entrar em mercados aparentemente saturados e simplesmente tornar a concorrência irrelevante:
- Elon Musk dominou inovação disruptiva como ferramenta. Aplicou isso em pagamentos online (PayPal), depois carros elétricos (Tesla), energia solar (SolarCity) e foguetes (SpaceX). Em cada um desses mercados, a concorrência estava acomodada — e ele entrou como booster aplicando o mesmo padrão repetidamente.
- Steve Jobs dominou design de produto num nível que ninguém em tecnologia levava a sério. Quando lançou o iPhone, o mercado de celular era dos gigantes Nokia, BlackBerry, Motorola. Quatro anos depois, todos estavam quebrando. Não porque Jobs tinha mais dinheiro — porque tinha uma habilidade desproporcional aplicada num lugar onde ela era rara.
- Jeff Bezos dominou obsessão por experiência do cliente quando o varejo americano era dos gigantes Walmart e Barnes & Noble. Entregas mais rápidas, devolução fácil, reviews abertas, preços transparentes. Ninguém mais levava isso a sério naquela escala. Depois aplicou o mesmo princípio em servidores (AWS) e virou booster de novo num mercado que parecia consolidado.
O padrão se repete: cada um deles ficou extraordinariamente bom em algo específico, e levou essa habilidade pra um mercado onde os concorrentes ainda jogavam no nível médio. Não é sorte. É volume virando habilidade, e habilidade virando assimetria.
MENTALIDADE3. Saber quantas horas você dedicou a algo
noção quantificável de quanto tempo da própria vida foi efetivamente investido em uma atividade, possibilitando avaliação de retorno e prioridade.
O conceito
Existe um site chamado wol.gg que pega o nome da sua conta de LoL e estima quantas horas você jogou. O legal é que ele não joga só o número seco — ele converte essas horas em equivalências do dia a dia. Quantos livros você poderia ter lido nesse tempo. Quantos filmes você poderia ter assistido. Quantos quilômetros poderia ter caminhado. É didático e, dependendo do número, doloroso.
No meu caso, foi assim:
Pra deixar legível na hora que você só passa o olho, fica também a versão em tabela:
| Métrica | Equivalência |
|---|---|
| Minutos jogados | 195.000 |
| Em horas | 3.250 horas |
| Em dias corridos | 135 dias (sem dormir, comer, viver) |
| Equivale a ler | ≈ 536 livros |
| Equivale a assistir | ≈ 1.857 filmes |
| Equivale a caminhar | ≈ 13.000 km |
Trazendo pra vida
Esse exercício de traduzir horas em alternativas concretas muda totalmente como você enxerga o tempo gasto. Olhar pra um número de horas absoluto não impressiona muito — mas “536 livros” impressiona. “135 dias seguidos sem dormir” impressiona. É o mesmo dado em dois formatos, só que um deles ativa uma parte do cérebro que o outro não ativa.
Sempre que possível, traduza tempo investido em algo em alternativas que você também valoriza. Não pra se torturar com o que poderia ter feito — esse caminho leva à paralisia. Mas pra calibrar quanto está disposto a continuar gastando dali em diante.
Um exemplo da minha vida
Faço esse exercício pra outras coisas também. Quanto tempo gastei em redes sociais por mês. Quanto tempo gastei em reuniões inúteis no último ano. Quanto tempo gastei revisando o mesmo argumento mental sem conclusão. Esses números, traduzidos em equivalências, fazem decisões difíceis ficarem fáceis. “Vou cortar Instagram” parece chato. “Vou recuperar X livros lidos por ano” parece motivador. É o mesmo movimento, com motor emocional diferente.
Em escala maior
Toda economia comportamental moderna explora isso: a forma como o número é apresentado afeta a decisão muito mais do que o número em si. Use isso a seu favor. Quando precisar tomar decisão de tempo, traduza pra unidade que mexe com você.
MENTALIDADE3.2 Uma reflexão estendida do tópico anterior
capacidade de avaliar, à luz de informação concreta, o impacto das próprias escolhas e estabelecer prioridades de forma honesta.
O conceito
Quando você quantifica suas horas e enxerga as alternativas, vem um desconforto produtivo. Foi a primeira vez que olhei pra esses números e pensei: 536 livros provavelmente teriam afetado minha vida mais do que 3.250 horas de LoL. Mas — e esse mas é importante — também é verdade que não tem como saber. Talvez sim. Talvez não. Kkk.
Trazendo pra vida
A consciência ajuda a decidir, mas raramente dá certeza absoluta. Você nunca tem o cenário contrafactual — a vida que você teria se tivesse escolhido diferente. Tudo que você tem é o presente, com mais informação do que tinha antes, e a chance de redirecionar daqui pra frente.
Por isso, consciência não é pra usar como castigo (“como eu desperdicei tempo!”). É pra usar como bússola (“sabendo o que sei agora, qual a próxima escolha mais alinhada?”). A diferença entre os dois usos é enorme — um te paralisa, o outro te impulsiona.
Um exemplo da minha vida
Hoje, antes de me dedicar a algo novo (curso, projeto, hobby), tento estimar grosseiramente quanto tempo vai consumir e o que isso desloca da minha vida. Não pra travar a decisão, mas pra entrar consciente. Se eu vou pagar com tempo de família, com sono, com leitura, com saúde — tá ok, mas eu sei. Quando dá errado, eu sei o custo. Quando dá certo, eu sei o que comprou aquela vitória.
MENTALIDADE4. Sair do League pra focar em coisas mais úteis (a controvérsia honesta)
deterioração cognitiva associada ao consumo prolongado de estímulos hiperdopaminérgicos, particularmente os de mídia digital e jogos de gratificação rápida.
O conceito
Aqui chega o ponto mais espinhoso. Você já notou que depois de uma simples partida, seu raciocínio fica mais lento e sua vontade de viver de verdade — fazer coisas significativas — despenca? Não é frescura. Tem nome: brain rot, apodrecimento cerebral. E tem um motivo bem documentado: dopamina fácil. Os jogos modernos — e LoL é um dos mais sofisticados nisso — são desenhados por equipes inteiras que estudam como deixar o jogo mais viciante. O trabalho deles é, literalmente, te manter ali. Cada efeito visual, cada som, cada notificação, cada detalhe é calibrado pra liberar dopamina no momento certo e te fazer querer “mais uma partida”.
Não é teoria conspiratória. É design intencional, e é um trabalho legítimo do ponto de vista da empresa — mais engajamento, mais receita. O problema é que o efeito colateral em quem joga muito é real e mensurável.
Trazendo pra vida
Aqui é onde mora a controvérsia. Esse jogo, que me ensinou todos esses conceitos que descrevi nas quatro partes — todos genuinamente valiosos — também me custa raciocínio nas horas seguintes. É uma transação. E a pergunta que cada pessoa precisa fazer é: a transação ainda está valendo a pena pra mim?
Pra mim, hoje, geralmente não. Por isso, passo meses sem jogar quando estou em um projeto sério. Mas isso é uma resposta minha, agora, com 3.250 horas de bagagem. Para alguém começando, com objetivos diferentes, a resposta pode ser outra.
Um paralelo curioso (e meio polêmico)
Tem gente que defende — e achei isso inicialmente contraintuitivo, mas depois faz sentido — que jogar LoL desenvolve habilidades cognitivas específicas que valem pra outras áreas. Já vi argumentos comparando isso a Counter-Strike sendo usado como ferramenta de treinamento em algumas faculdades de medicina, pelas habilidades de percepção espacial, decisão rápida, coordenação e leitura de padrões. Faz sentido, mesmo soando estranho à primeira vista.
Então o juízo final fica complicado. Talvez sem o LoL eu nunca tivesse aprendido essas habilidades de decisão sob pressão, gestão emocional, leitura de mapa. Mas com certeza na fase que estou hoje não pretendo mais jogar por muitas horas seguidas — minha vista, minha coluna e principalmente meu cérebro agradecem. Só que aí também nunca teria aprendido na prática o conceito do volume elevando habilidades. Entende por que é confuso saber se valeu a pena?
O que ficou comigo
Não vou fingir que tenho a resposta. O que ficou claro pra mim é o seguinte:
- Os conceitos valeram. Esses sete tópicos da Parte 1, os seis da Parte 2, os quatro da Parte 3 e esses cinco da Parte 4 são genuínos. Mudaram minha cabeça em direções produtivas.
- O custo cognitivo continua real. Ele não desaparece porque é divertido ou te traz boas lições. Aliás, venho pensando em formas de diminuí-lo. Minha tese hoje para reduzi-lo é: configurando o jogo de forma a diminuir a quantidade de estímulos. Menos sons ao mesmo tempo, menos cores nas explosões, entre outros. (Ainda em testes)
- A pergunta certa não é “LoL é bom ou ruim”. É “quanto disso, e em qual fase da minha vida”.
- Se você não vai virar profissional ou ganhar dinheiro com isso, vale considerar reduzir bastante. Os aprendizados podem ser extraídos sem necessidade de manter o volume eternamente.
Fechando a série: o que sobra quando o jogo desliga
Então é isso. Vinte conceitos. Quatro partes. Cinco categorias. E uma série de paradoxos que eu provavelmente nunca vou resolver inteiramente — começando pelo principal: aprendi muito jogando, mas teria aprendido se passasse o mesmo tempo lendo? Não dá pra saber. O que dá pra fazer é o que fiz aqui — extrair, organizar, transferir, e seguir.
Se você jogou ou joga, espero que esses conceitos tenham acendido algumas conexões que você ainda não tinha feito. Se nunca jogou, espero que tenha sido didático o bastante pra ter valor mesmo sem o contexto do jogo. E em qualquer um dos casos, espero que o exercício de quantificar suas horas em algo — qualquer algo — tenha plantado uma curiosidade saudável.
Se quiser revisitar a série inteira, ela está dividida em quatro partes:
- Parte 1 — Onde focar energia (snowball, micro/macro, monochampion, coinflip, lutas com objetivo, superioridade numérica, regra dos 33%)
- Parte 2 — Decisão sob pressão (tilt, fases do jogo, carregar, não seguir call errada, nunca trocar no bounce, espelhar o mapa)
- Parte 3 — Informação, ego e responsabilidade (visão de mapa, análise de replays, foque nos seus 20%, sempre culpam o jungle)
- Parte 4 — Volume, maestria e a pergunta desconfortável (volume, boosters, saber as horas, consciência, sair do jogo)
Obrigado por chegar até aqui. Se algum conceito te pegou em particular, me conta. E se você ficou com a sensação de que tem mais coisa relevante, deixa nos comentários suas sugestões.
Até a próxima.