Antes de começar, uma confissão: eu tenho um dilema permanente sobre se devo continuar jogando League of Legends ou não. Quando estou em um projeto importante, que demanda foco de verdade, chego a passar meses sem abrir o jogo. Porque sinto, na prática, que meu raciocínio fica mais lento e minha bateria pra realizar coisas difíceis diminui depois de uma sessão. Não é impressão. É sensação física, perceptível.
Mesmo assim, quero trazer esses aprendizados aqui. Porque eles não têm a ver com esse efeito colateral. Pelo contrário: são coisas que mudaram minha mentalidade em muitos momentos, com altíssima taxa de transferência pra situações da vida em geral e, principalmente, pros negócios. Vou tocar nessa controvérsia toda lá na quarta parte da série, prometo. Por agora, vamos ao que importa.
Pra você ter um pouco de contexto: comecei a jogar entre 2015 e 2016. Nunca joguei só por diversão — sempre quis subir nos rankings. Por muito tempo acompanhei os campeonatos brasileiros e mundiais, lia as atualizações de patch religiosamente, paguei por cursos e cheguei a fazer coaching individual com jogadores profissionais. Hoje não levo mais com essa intensidade, mas a bagagem ficou. E é dela que vou tirar tudo que vem a seguir.
Esses aprendizados deram tanto pano pra manga que dividi tudo em quatro partes. Esta primeira é sobre onde focar energia: como compor pequenas vantagens, onde colocar atenção, onde não colocar, e como pensar probabilidade num mundo que parece sortudo e quase nunca é.
Vou explicar cada conceito do jogo de um jeito que quem nunca jogou consegue entender, mas sem dar voltas que entediem quem joga. Cada tópico segue a mesma estrutura: definição (estilo dicionário, pra fixar bem), como trazer pra vida, exemplo pessoal e exemplo amplo. Pega o café.
HABILIDADE1. Snowball: pequenas vantagens viram bolas de neve gigantes
no LoL, fenômeno em que uma pequena vantagem inicial é convertida em vantagens cada vez maiores, em ciclo, até se tornar esmagadora.
O conceito no jogo
Você consegue um abate cedo. Com o ouro extra, compra um item antes do inimigo. Com o item, mata de novo mais fácil. Com o segundo abate, fica ainda mais forte. E quando seu adversário percebe, você já está com o dobro de itens e ele não consegue mais te enfrentar de igual pra igual. A bola de neve cresceu até virar uma avalanche.
Trazendo pra vida
A vida funciona exatamente assim, só que mais devagar. Vantagens pequenas, repetidas e compostas viram diferenças absurdas no longo prazo. O problema é que como a evolução é lenta, a gente subestima. Não vê a bola de neve crescendo dia após dia.
A pergunta que aprendi a me fazer é: o que eu posso começar hoje que, se eu mantiver, vai estar gigante daqui a 6 meses? Pode ser uma rotina, um aprendizado, um relacionamento, um hábito de saúde. O segredo é começar e deixar a composição fazer o trabalho.
Um exemplo da minha vida
Onde eu vejo isso bem claro é em otimização de funil de marketing. Cada etapa do funil — anúncio, página de captura, oferta, checkout, retenção — tem uma taxa de conversão. Se você melhora 10% em cada uma das 5 etapas, não significa 10% melhor no final. Significa quase 60% melhor (1,1⁵ ≈ 1,61). É snowball puro: cada otimização pequena se multiplica pela próxima.
Quando entendi isso, parei de procurar a “grande sacada” e comecei a caçar pequenas vitórias compostas. Funciona muito mais.
Em escala maior
Esse é o princípio por trás de praticamente toda fortuna construída no longo prazo, todo atleta de elite, toda empresa que parece ter crescido “do nada”. Não cresceu do nada. Cresceu de mil pequenas vantagens compostas que ninguém viu acontecer.
FOCO2. Micro e Macro: domine o básico pra liberar o cérebro
micro são as habilidades mecânicas executadas em tempo real (trocas de dano, combos, farmar sem errar last hits); macro são as decisões estratégicas no mapa (rotação, objetivos, leitura de partida).
O conceito no jogo
No LoL, micro são as habilidades mecânicas: trocar dano com o adversário, dar last hit no minion certinho, esquivar de habilidades, posicionar-se na luta. Macro são as decisões maiores: pra onde rotacionar, qual objetivo priorizar, quando forçar uma luta, quando recuar. Quanto mais automatizado o seu micro, mais energia mental sobra pro macro. É quase uma lei.
Trazendo pra vida
Toda habilidade complexa é assim: tem uma camada mecânica que precisa virar reflexo e uma camada estratégica que exige cabeça. Se você gasta toda sua atenção lutando com o básico, não sobra cérebro pro que realmente importa.
Um exemplo da minha vida
O exemplo mais didático que tenho é dirigir. No começo, você gasta 100% da sua atenção em passar marcha, pisar na embreagem, dar seta, olhar no retrovisor. Não sobra nada pra rua. Com o tempo, tudo isso vira automático. Aí seu cérebro fica livre pra prestar atenção no que é realmente importante: prever um pedestre saindo entre os carros, perceber que o motoqueiro do lado tá errático, antecipar uma freada brusca.
Em alguns casos, dá até pra prever questões de segurança. Tipo notar dois caras numa moto se aproximando de um jeito estranho num semáforo. Esse tipo de leitura ambiental só é possível porque o micro tá no automático.
Em escala maior
Vale pra qualquer área. Programador que não automatizou os atalhos do editor gasta cérebro com mecânica em vez de arquitetura. Escritor que ainda pensa em gramática toda hora não consegue pensar em narrativa. Empresário que não tem operação rodando sozinha não consegue pensar em estratégia. Automatize o básico. É chato, mas é o que liberta.
FOCO3. Monochampion: ficar excelente em uma coisa antes de espalhar
jogador que escolhe um único personagem e joga apenas com ele de forma sistemática, em busca de domínio mecânico extremo.
O conceito no jogo
LoL tem mais de 160 personagens, cada um com habilidades, combos e timings diferentes. O monochampion escolhe um e joga só com ele, partida após partida, durante meses ou anos. Parece chato, mas o domínio mecânico que isso gera é absurdo. O jogador conhece cada frame de cada habilidade, cada matchup, cada limite do personagem. Como o micro fica no automático (lembra do tópico anterior?), ele consegue focar quase 100% no macro.
Trazendo pra vida
Esse conceito me ensinou foco. De verdade. Especialmente quando se trata de adquirir uma nova habilidade, é quase sempre mais valioso ficar muito bom em uma coisa do que ficar mediano em várias. A profundidade abre portas que a superfície nunca abre.
Um exemplo da minha vida
Eu sou generalista por natureza. Curto entender de tudo um pouco, e isso tem valor — afinal, conexões entre áreas só aparecem quando você tem o panorama. Mas durante muito tempo eu confundi “ser generalista” com “ficar mediano em tudo”, e isso me limitou bastante.
Hoje persigo o que chamam de profissional em T: uma haste vertical bem profunda numa habilidade específica e uma haste horizontal de conhecimento amplo conectando outras áreas. O monochampion me ensinou a parte vertical. O resto vem por curiosidade.
Em escala maior
Quase todo profissional notável que conheço tem essa estrutura. Médico que entende de gestão. Programador que entende de design. Designer que entende de comportamento humano. Mas nenhum deles é mediano na profundidade — todos têm um pilar onde são referência. Comece pelo pilar.
DECISÃO4. Coinflip: depender da sorte é o pior plano possível
joga uma moeda pra cima em um jogo de cara ou coroa; jogada cujo resultado depende fundamentalmente do acaso (≈50%), em geral por falta de informação, habilidade ou preparo do jogador.
O conceito no jogo
Coinflip — “cara ou coroa” — é qualquer jogada onde sua chance de sucesso depende muito mais da sorte do que da habilidade. Você se mete numa luta sem informação, sem visão do mapa, sem certeza se o jungler do inimigo vai aparecer, e basicamente joga uma moedinha pro alto. Pode dar certo. Pode não dar.
E aqui mora um detalhe importante: o problema não é estar em 50%. É depender. Quando você entra numa situação sem informação suficiente, sem experiência suficiente, sem habilidade suficiente, contando que “vai dar certo”, sinto muito: as probabilidades não estão a seu favor. E pior, se você faz isso várias vezes, uma sequência de derrotas é matemática, não azar.
Trazendo pra vida
Aprender a identificar quando estou prestes a dar um coinflip foi um dos maiores upgrades mentais que esse jogo me deu. É um sinal de alerta interno: calma, isso aqui tá dependendo demais de sorte, eu deveria me preparar mais antes.
Um exemplo da minha vida
Onde mais paguei caro com isso foi investindo dinheiro em tráfego pago (anúncios pagos em redes sociais). Várias vezes apertei o botão de subir campanha contando com a sorte, e confiando que o dinheiro colocado faria parte do trabalho, em vez de me dedicar mais à pesquisa, ao copy, à oferta, à página. Dinheiro tem essa habilidade chata: ele resolve muita coisa e mascara muito erro. Então é fácil se pegar “fazendo no foda-se” e achar que tá tudo bem porque o resultado veio.
Depois que entendi isso, sempre que vou tomar uma decisão importante a frase aparece na cabeça: “acho que estou dando um coinflip agora, devo me preparar mais.” Não é paralisia — é só pagar o preço antes em vez de pagar depois.
Em escala maior
Investidores chamam isso de “diferença entre risco e incerteza”. Risco é quando você sabe as probabilidades. Incerteza é quando você nem sabe. A maioria dos coinflips na vida não são de 50% — são incertezas disfarçadas de aposta. E a forma de transformar incerteza em risco gerenciável é justamente o que estamos falando: informação, experiência, habilidade.
DECISÃO5. Só lutar quando há objetivos no mapa
no League of Legends tem objetivos que trazem vantagens extremamente importantes para seu time, quando você consegue fazer e não deixar o seu inimigo fazer: como dragões, vastilarvas, arautos e barões.
O conceito no jogo
Tem uma diferença gritante entre jogadores médios e jogadores top: jogadores médios lutam pela emoção de matar o adversário. Jogadores top só lutam quando matar o adversário destrava algo. Esse algo pode ser uma vantagem numérica pra fazer o dragão, abrir caminho até o barão, derrubar uma torre ou avançar visão pelo mapa. Sem objetivo ativo, lutar é só desperdiçar tempo e recursos. Pior: é dar a chance do inimigo te punir.
Trazendo pra vida
Esse foi um dos maiores filtros que eu desenvolvi. Hoje, antes de entrar em qualquer confronto — uma discussão, uma briga digital, uma disputa de ego, uma reclamação — me pergunto: se eu vencer isso aqui, o que muda? Se a resposta for “nada relevante”, eu simplesmente não entro.
Um exemplo da minha vida
Parei de gastar energia em discussões que não trariam ganho real. Aquele comentário irritante na internet? Não vou responder. Aquela alfinetada num grupo? Deixei passar. Aquela disputa sobre quem tava certo num assunto que ninguém vai lembrar em uma semana? Sigo a vida.
Não é covardia, é assertividade. Você tem um número finito de batalhas de qualidade pra travar na vida. Gaste com as que valem.
Em escala maior
É basicamente o que estrategistas militares chamam de “batalhar no timing certo”. Você só luta quando o terreno, o timing e o objetivo são seus. Caso contrário, recua, ganha tempo, posiciona melhor.
FOCO6. Superioridade numérica: o oposto do coinflip
condição em que um lado entra no confronto com mais unidades efetivas que o outro, deslocando a probabilidade fortemente a seu favor.
O conceito no jogo
Lembra do coinflip? Superioridade numérica é o exato oposto. É tomar a decisão já com a probabilidade desviada a seu favor. Você tem muito mais chance de vencer uma luta sendo 5 (companheiros) contra 4 (adversários) do que sendo 5 contra 5. E muito, muito mais do que sendo 4 contra 5.
É engraçado quantas lutas começam exatamente do jeito errado: o time tá 3 contra 5 e mesmo assim alguém puxa a luta. Não é à toa que perdem. Não foi azar. Foi matemática.
Trazendo pra vida
Eu não me considero uma pessoa muito competitiva. Sou mais criativo. Mas trago esse conceito pra um lado mais individual: a luta diária contra distração e perda de foco.
Lutar contra uma distração é fácil. Lutar contra cinco ao mesmo tempo é receber um olé.
Um zagueiro sozinho tentando marcar Neymar e Messi ao mesmo tempo, é a mesma coisa que você quando tem cinco abas abertas, três notificações ativas e uma playlist nova pra explorar. Não tem como ganhar.
Um exemplo da minha vida
Sempre que vou trabalhar em algo importante, reduzo as distrações até o número delas ser menor que eu. Idealmente zero. No máximo uma. Se tem mais de uma, meu primeiro foco vira eliminar as extras antes de fazer qualquer outra coisa. Celular em outro cômodo, abas fechadas, fone com música sem letra, porta fechada. É absurdo a diferença que faz quando o jogo de novo é 1 contra 0 — simplesmente contra 0 sempre irei vencer e é aí que se encontra a magia da privação de distrações que sempre falo.
Em escala maior
Esse princípio é universal e antigo. No militarismo, gerar superioridade numérica é doutrina básica desde Sun Tzu — se possível, nunca enfrente em condições iguais. No futebol, praticamente todas as táticas modernas tentam gerar “2 contra 1” em algum lugar do campo: dois atacantes contra um zagueiro, um lateral livre porque o ponta puxou a marcação. É de onde sai a maioria dos gols.
O nome técnico disso é gerar assimetria entre capacidade de ataque e capacidade de defesa. Onde você consegue criar essa assimetria a seu favor, ali tá o gol. Ou a meta cumprida. Ou o problema resolvido.
MENTALIDADE7. Não tem como vencer 100% (e tudo bem)
modelo segundo o qual ~33% das partidas serão ganhas independente de você, ~33% serão perdidas independente de você, e ~33% dependem do seu desempenho.
O conceito no jogo
Por melhor que você seja, é impossível vencer 100% das partidas no longo prazo. Vai cair sua internet. Vai cair a internet de algum aliado. Vai aparecer um troll (gente que entra só pra atrapalhar). Vai ter dia em que você simplesmente está cansado. Vai ter o time inimigo num dia divino. É uma quantidade absurda de variáveis fora do seu controle.
Aprendi com um jogador chamado Asteek um modelo mental que mudou minha cabeça:
- 33% das partidas você ganha mesmo sem fazer quase nada — o time carrega.
- 33% das partidas dependem de você pra serem vencidas — é aqui que mora o jogo. ← foque aqui
- 33% das partidas estão perdidas independente do que você faça — não dá pra carregar o time inteiro.
Trazendo pra vida
Esse modelo é uma aplicação prática e direta de algo que eu já gostava no estoicismo: focar no que está sob seu controle, soltar o que não está. Mas o legal da formulação do Asteek é que ela é específica. Você não fica no abstrato “foco no que controla”. Você sabe exatamente onde investir energia: no terço do meio.
Um exemplo da minha vida
Antes, eu lamentava todas as derrotas igualmente. A que era minha culpa, a que tinha sido azar, a que era inevitável. Tudo virava o mesmo peso emocional, a mesma rolagem mental, a mesma frustração. Era exaustivo e improdutivo.
Hoje eu separo. Quando dá errado, primeira pergunta: isso era controlável? Se foi do tipo “derrota inevitável”, eu reconheço, registro o aprendizado se houver, e sigo. Se foi “derrota onde eu fiz a diferença e errei”, aí sim eu paro pra estudar o que dava pra ter sido diferente. Isso vale pra projetos, parcerias, decisões financeiras, relacionamentos.
Em escala maior
Esse modelo também me deu paciência com trabalho em equipe. Às vezes você toma prejuízo junto com o time, e isso faz parte. Não é traição, não é injustiça cósmica — é o preço de jogar coletivo. Times bons aceitam que vão perder algumas partidas “junto” e usam isso pra ficar mais coesos, não mais ressentidos.
Fechando a Parte 1: foco é o fio que costura tudo
Se eu tivesse que resumir essa primeira parte em uma frase, seria: foco é a habilidade de saber onde investir sua energia limitada.
Snowball te ensina onde investir o tempo (em coisas que compõem). Micro/Macro te ensina onde investir atenção (no estratégico, depois que o básico tá automático). Monochampion te ensina onde investir profundidade (em uma coisa, antes de espalhar). Coinflip te ensina a não investir em sorte. Lutar só com objetivos te ensina onde não investir energia. Superioridade numérica te ensina como inclinar o jogo. E o modelo dos 33% te ensina em quais partidas vale a pena gastar suor.
É tudo a mesma coisa, vista de ângulos diferentes. E foi um jogo de computador que me fez ver. Quem diria.