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Parte 2 de 4 · Tomada de decisão sob pressão

Coisas que aprendi com League of Legends e vou levar pra vida e pros negócios

Sobre tilt, calls erradas e por que recuar às vezes é a jogada mais corajosa.

Por Mateus · Leitura: ~12 minutos

Se você caiu aqui sem ler a Parte 1, sem problema: o resumo é que comecei a jogar entre 2015 e 2016, sempre quis subir nos rankings, paguei cursos e coaching, e percebi com o tempo que o jogo me ensinou um monte de coisa que levo pra vida e direto me ajudam nos meus empreendimentos. Estamos numa série de quatro partes. A primeira foi sobre onde focar energia. Agora vamos para uma nova camada: decisão sob pressão.

Decidir bem com tempo é uma coisa. Decidir bem em 4 segundos, com adrenalina batendo, gente gritando no chat e sua tela cheia de informação, é outra completamente diferente. E é nessa segunda situação que a vida geralmente te coloca. Os tópicos dessa parte são todos sobre isso: como manter a cabeça no lugar, como ler o momento, e como ter coragem de tomar decisão impopular quando ela é a certa.

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MENTALIDADE1. Tilt: se você só conseguir não tiltar, já é melhor que 90%

tilt /tɪlt/

estado emocional negativo (frustração, raiva, impaciência) que degrada a tomada de decisão e aumenta a probabilidade de erros em sequência.

O conceito no jogo

Tiltar é perder o controle emocional. Você morreu de forma boba, alguém te xingou no chat, o time fez uma jogada absurda, e algo estala. A partir dali, suas decisões pioram em cascata: você joga com mais raiva, toma risco que não tomaria, força lutas que não fariam sentido, e culpa todo mundo menos você. O detalhe cruel é que você quase nunca percebe que tá tiltado enquanto está. Só depois, olhando os escombros.

E aqui vai uma frase que mudou meu jogo: se você só conseguir aprender a não tiltar, já está melhor do que 90% dos jogadores. Não precisa virar mecanicamente brilhante. Não precisa decorar matchups. Só precisa segurar a onda. É um pré-requisito tão básico e tão raro que sozinho já te coloca à frente.

Trazendo pra vida

Não tem como ficar bom em nada que importa se você quebrar o teclado toda vez que algo der errado. E a vida vai dar errado. Vai dar errado em momento ruim, com pouca informação, na frente das pessoas erradas. A pergunta não é se vai acontecer — é o que você faz quando acontece.

Um exemplo da minha vida

Empreender é um campeonato infinito de microfracassos. Anúncio que não converteu, cliente que sumiu, fornecedor que falhou, contrato que quebrou. No começo, eu internalizava cada um desses como tragédia pessoal. Deixava esses acontecimentos me abaterem. Com o tempo, você fica treinado para reconhecer o tilt nos primeiros sinais — coração acelerado, respiração curta, vontade de “responder à altura” — vejo que é hora de pausar. Levanto, ando, bebo água, faço outra coisa por 20 minutos. Quando volto, a decisão é diferente. Quase sempre melhor, pra não dizer SEMPRE MELHOR.

Nota Detalhe importante: tilt não é fraqueza, é química. É amígdala disparando no seu cérebro. Aceitar isso facilita gerenciar — você para de se julgar por sentir e começa a se preocupar só com como age depois de sentir.

Nota 2: Nem sempre é possível sair e se acalmar por 20 minutos. Mas quase sempre é possível desacelerar e respirar mais fundo quando se sente o começo do tilt.

Em escala maior

Pôquer profissional, cirurgia, aviação, esporte de elite — todas as profissões de alta pressão investem pesado em controle emocional. Não porque sentir seja proibido, mas porque sentir e agir impulsivamente é incompatível com performance. A diferença entre o amador e o profissional não costuma ser a habilidade técnica. É essa.

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DECISÃO2. Early, mid e late game: cada fase pede um jeito diferente de jogar

fases do jogo /ˈfa.ziz du ˈʒo.gu/

early game (início, fase inicial, geralmente os primeiros 15 minutos), mid game (meio, geralmente dos 15 aos 30 minutos) e late game (geralmente tudo depois dos 30 minutos, onde ficam as lutas decisivas e fim de partida) — cada fase exige prioridades, riscos e estilos distintos.

O conceito no jogo

Uma partida de LoL passa por três fases bem distintas. No early game, você fica na sua lane, tenta ganhar pequenas vantagens, evita morrer e pega farm. No mid game, você começa a rotacionar, busca objetivos médios, ajuda outros laners. No late game, as lutas em equipe ditam o resultado e um único erro pode custar a partida. Jogar mid game como se fosse early te faz focar nas coisas erradas. Jogar late como se fosse mid faz entregar o jogo. Cada fase tem suas regras.

Trazendo pra vida

Aplicar a estratégia errada pra fase em que você está é um dos erros mais comuns e mais caros. E é difícil de perceber, porque a estratégia anterior funcionou — então você acha que vai continuar funcionando. Mas o jogo mudou. Os adversários cresceram. As prioridades viraram. O que te trouxe até aqui não é necessariamente o que te leva adiante.

Um exemplo da minha vida

O exemplo mais claro pra mim é as fases do empreendedor. O jeito que você empreende sem dinheiro, com um pouco de dinheiro e com dinheiro sobrando é completamente diferente. Sem dinheiro, você foca em validação rápida, hustle, fazer no improviso. Com um pouco, você começa a investir em estrutura, contratar, arrumar processo. Com dinheiro sobrando, sua tarefa principal vira não estragar — proteger o que já funciona e tomar riscos calibrados de longo prazo, não mais tantos riscos exploratórios.

Confundir as fases destrói gente. Empreendedor que ficou rico ainda agindo como hustler quebra do nada. Empreendedor que tenta entrar com cara de “grande empresa” na fase do hustle nem sai do lugar. A maturidade é reconhecer em qual fase você está e jogar de acordo.

Em escala maior

Vale pra carreira (júnior, pleno, sênior pedem comportamentos diferentes), para relacionamentos (paixão inicial, construção, manutenção de longo prazo), para investimento (acumulação, consolidação, distribuição). Em todo lugar onde existem fases, ignorá-las cobra caro.

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MENTALIDADE3. Carregar: assumir protagonismo no momento difícil

carregar (1v9) /ka.ʁeˈgaɾ/

ato de um jogador, por mérito próprio, decidir uma partida desfavorável quase sozinho, suprindo as deficiências do time.

O conceito no jogo

“Carregar” é o famoso 1v9 — quando um jogador sozinho decide uma partida que estava perdida ou difícil, fazendo jogadas acima do nível dos outros nove em quadra (4 do seu time + 5 inimigos). Não é arrogância, é função. Quando o time está abaixo, alguém tem que puxar. E geralmente o resto do time, mesmo que reclame, segue quem mostra capacidade de carregar.

Trazendo pra vida

Existem momentos em que o ambiente está confuso, todo mundo está paralisado, ninguém quer assumir responsabilidade, e a única saída é alguém dar um passo à frente. Esse alguém pode ser você. Em geral, é melhor que seja, porque a alternativa — esperar que outro carregue — costuma falhar.

Um exemplo da minha vida

Em projetos com sócios, equipes ou parceiros, sempre vai haver momentos em que tudo trava ao mesmo tempo: caixa apertou, cliente reclamou, colaborador pediu pra sair, prazo apertou. Na minha experiência, esses momentos têm dois caminhos: ou alguém assume o leme e puxa o resto, ou todo mundo afunda em conjunto. Aprender que eu posso ser esse alguém — e que isso não é um privilégio, é uma escolha — foi libertador.

Em escala maior

Liderança de verdade aparece em momento ruim, não em momento bom. Em momento bom, todo mundo se diz líder. Em momento ruim, sobra pra quem decide carregar. E mais importante: carregar não é gritar mais alto. É fazer mais e melhor enquanto os outros ainda estão tentando entender o que está acontecendo.

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DECISÃO4. Não seguir call errada: melhor parecer traidor do que afundar junto

call /kɔːl/

decisão tática anunciada por um jogador para o restante do time (ex.: “vamos pro dragão”, “luta agora”, “recuem”).

O conceito no jogo

Existe uma cena clássica em LoL: o time inteiro decide “pular de uma ponte” — ou seja, fazer uma jogada claramente errada. Atacar um inimigo cheio de visão. Forçar luta em desvantagem. Ir pro objetivo errado. Você vê com clareza que vai dar ruim. O dilema é: você segue junto ou se segura?

A resposta certa, quase sempre, é se segurar. Melhor seu time morrer inteiro e você sair vivo do que você morrer junto, ainda tendo a chance de ser a última linha de defesa no caso de um avanço adversário. Parece óbvio, mas é bem comum ser xingado por isso no chat. Vão te chamar de traidor, covarde, e irão querer colocar a culpa do recente fracasso em você. Aceite. Eles estão enganados.

Trazendo pra vida

Existem dois tipos de pessoas envolvidas numa call errada. A primeira metade tem a mentalidade de “se eu vou cair, quero levar todo mundo junto comigo”. A segunda metade precisa achar um culpado para seu próprio erro. A lógica que eles tentam convencer os outros é: “só morremos porque você não estava lá”. Tudo isso pra não ter que reconhecer o óbvio: que estava errado. Refletir e reconhecer que deu uma call errada mataria o seu ego frágil.

Isso é muito comum no ser humano. Quantas vezes você já não viu uma pessoa querendo justificar seus erros colocando a culpa em outra pessoa?

Um exemplo da minha vida

Aconteceu várias vezes comigo em reuniões. Decisão coletiva ruim sendo empurrada com unanimidade aparente. Eu via que estava errado, mas a pressão social pra concordar era enorme. As vezes que eu cedi, paguei com prejuízo real (dinheiro, tempo, energia). As vezes que eu segurei a minha posição — mesmo sendo voto vencido — pelo menos eu não financiei o erro. Isso preserva sua capacidade de jogar a próxima rodada inteiro, com recursos.

Nota Não confunda “não seguir call errada” com “nunca seguir call que não é sua”. Boa parte das calls dos outros estão certas e você só não enxerga ainda. O critério é: você consegue articular por que essa call específica é errada? Se sim, segure. Se é só desconforto, talvez confie.

Em escala maior

Em finanças, isso é o oposto do efeito manada — sair quando todo mundo está comprando, comprar quando todo mundo está vendendo. Em ciência, é o cara que segura sua tese contra o consenso e depois é provado certo. Em política interna de empresa, é quem tem coragem de dizer “isso não vai funcionar” numa reunião onde todo mundo balança a cabeça concordando. Sempre paga, mas é caro no curto prazo. Acostume-se.

Isso me lembra quando em 2008, Michael Burry resolve apostar contra os bancos e previa que os Estados Unidos iam entrar em crise. Todos achavam que ele estava louco, mas mesmo assim ele segurou suas posições e fez uma das maiores jogadas de todos os tempos do mercado financeiro. Isso é muito bem relatado no filme “A Grande Aposta” (2015). Recomendo ver.

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DECISÃO5. Nunca trocar no bounce: oportunidades de alto risco e muito a perder, não são oportunidades

trocar no bounce /tɾoˈkaɾ nu baʊ̯ns/

engajar o adversário durante o “bounce” da onda de minions — momento em que a wave volta contra você. Trocar nessa janela é estatisticamente desfavorável.

O conceito no jogo

Esse é um conceito que aprendi com um jogador chamado Prandi, que tem o canal Solo Top Player no YouTube. Ele é muito enfático e repetitivo com isso, e por bom motivo. Quando a onda de minions “bounce” (ou seja, está voltando contra você), suas chances de ganhar a troca são muito menores, tem mais minions batendo em você caso dê um engage, e caso dê errado, você ainda perde todo aquele recurso de minions que morrerão na sua torre. Mesmo assim, é a hora em que parece mais tentador atacar — porque o inimigo está “solto”, longe de sua própria torre, exposto. É uma armadilha estatística.

A real é que muitos early games são perdidos por desrespeitar esse único conceito. Um momento de impulsividade, de um único jogador, e a partida inteira pode ser comprometida. Por causa de uma porra de uma regrinha super simples.

Trazendo pra vida

A vida está cheia desses bounces — situações que parecem oportunidades mas, quando você analisa frio, têm baixíssima probabilidade de ganho e altíssima probabilidade de dano caso dê errado. A propaganda costuma ser alta. O risco-benefício, péssimo.

Um exemplo da minha vida

O exemplo gritante são jogos de azar. Eu nunca jogo. Não por moralismo, é matemática. Esses jogos são arquitetados pra você ter baixíssimas chances de ganhar e altíssimas chances de viciar e perder muito. Eles são feitos pra que você nunca saia ganhando no longo prazo, pra que você se vicie e deixe muito dinheiro. Não faz nenhum sentido apostar nesse cenário. Mas os cassinos online estão no auge, não é mesmo? Realmente tem gente que acha que ele será o escolhido e enriquecerá com isso.

E não é só cassino. É a oferta de “oportunidade única” que aparece quando você está sem dinheiro. É o investimento mirabolante que “tá fechando essa semana”. É o relacionamento que começa com bandeira vermelha mas “ah, mas é tão intenso”. Tudo bounce. Resista.

Em escala maior

Em teoria de decisão, isso se chama assimetria de payoff: quando o que você ganha, caso ganhe, é pequeno e o que você perde, o mais provável, é gigante, mesmo se a probabilidade de ganhar for alta, a aposta ainda é ruim. Nassim Taleb dedicou livros a esse conceito (procura por “fragilidade” se quiser se aprofundar). A regra geral: nunca aposte muito pra ganhar pouco. Espere o setup certo.

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DECISÃO6. Espelhar o mapa: cada ataque deles abre uma brecha

espelhar o mapa /es.peˈʎaɾ u ˈma.pɐ/

responder ao movimento adversário em outro setor do mapa, explorando a brecha deixada pelo deslocamento — em vez de reagir no mesmo ponto.

O conceito no jogo

Se o time inimigo está focado embaixo no mapa, você não precisa correr pra defender necessariamente. Pode fazer alguma coisa em cima. Se eles gankaram (atacaram) o seu bot (parte de baixo), você ganka o top (parte de cima). Se eles estão fazendo arauto (objetivo do lado de cima), você faz dragão (objetivo do lado de baixo). A regra é simples: cada ataque deles em um setor tem que deixar uma brecha em outro. Sua função é encontrar e explorar essa brecha.

Trazendo pra vida

Esse é um dos conceitos mais transferíveis que existem. Toda ação consome recurso de quem age — atenção, tempo, dinheiro, energia. Recurso gasto num lugar é recurso ausente em outro. Quem entende isso para de só reagir e começa a contra-atacar de forma assimétrica.

Um exemplo da minha vida

Em gestão de concorrência, uso isso direto. Quando vejo um concorrente investindo pesado em um canal específico — digamos, anúncios de Instagram — me pergunto qual canal ele está negligenciando enquanto faz isso. SEO? Email? Indicação? E ataco esse canal negligenciado. Funciona porque ninguém consegue ser ótimo em tudo ao mesmo tempo. Cada cruzado que o boxeador joga abre a guarda dele. Sua função é ler onde a guarda abriu.

Em escala maior

Quando alguém te ataca em um aspecto, é geralmente porque está vulnerável em outro. Quando um país concentra forças numa fronteira, deixa outra fraca. O mundo está cheio de oportunidades. Ao invés de focar nos mesmos lugares que seus inimigos e ficar se digladiando, aprenda a contra-atacar nas brechas.

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Fechando a Parte 2: decidir bem é uma habilidade treinável

Decisão sob pressão parece coisa de talento. Não é. É treino. Tilt se aprende a controlar. Fases do jogo se aprende a ler. Carregar se aprende a aceitar como responsabilidade. Não seguir call errada se aprende a tolerar socialmente. Não trocar no bounce se aprende a respeitar matematicamente. Espelhar o mapa se aprende a explorar vulnerabilidades que o ataque lançado a você gerou.

Tudo isso é músculo. E como qualquer músculo, fortalece quando você usa, atrofia quando você não usa. A diferença entre quem decide bem sob pressão e quem trava não é nascimento. É repetição com intenção.

→ Continua na próxima parte

Informação, ego e responsabilidade — visão de mapa, análise de replays, foque nos seus 20% e por que sempre culpam o jungle (e o marketing, na vida real).

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